quinta-feira, 3 de julho de 2008

DANCEI

por Mariana Piza


Uns movidos a rodas, outros andam a pé, há aqueles ainda, que bambeiam por um desequilíbrio natural do corpo, não importa como chegam, bem ou mal, felizes ou deprimidos, eles vieram para dançar. Fui convidada para registrar por meio da escrita as oficinas de DanceAbility ministradas por Neca Zarvos, com assistência de Estela Lapponi, no espaço Crisantempo, na Vila Madalena. Só o que sei, neste primeiro dia de aula, é que esta técnica foi criada pelo o americano Alito Alessi e tem como objetivo principal unir gente de todo tipo para chacoalhar o esqueleto.

Meu trabalho consiste em observar este curso de duas formas: uma racional e a outra extremamente emocional. A primeira resultará na produção de uma apostila com a descrição dos exercícios de cada aula e que será entregue, no final do curso, aos alunos que participaram de todos os encontros; já a segunda, serão as minhas impressões das aulas, dos participantes, desta novíssima relação que se estabeleceu na minha vida, e que vocês poderão acompanhar semanalmente neste blog.

Apesar de, no curso de DanceAbility, eu ser aquela que observa e retrata o que está acontecendo em sala de aula, vou voltar o olhar para mim um segundo, para vocês saberem um pouco sobre esta que vos escreve. Sou formada como atriz e jornalista. Exerci as duas profissões durante um bom tempo da minha vida. Mas por obra do destino desgovernado por mim mesma, fui parar na televisão e virei produtora, fato que já me colocou bem posicionada no céu quando deixar este mundo. Conquistada a vaga no Paraíso, resolvi, neste ano, buscar a paz na Terra e voltar aos meus princípios. Escrever, à propósito, é um deles. E este convite caiu como uma luva para aquela que achava que tinha perdido à mão com a escrita. Então, vamos lá! Me sinto bem deficiente nesta volta, mas sei que vou achar meios para me expressar, seja pela escrita, por imagens em vídeos, ou ainda através de áudios com depoimentos dos participantes.

As aulas serão ministradas durante oito semanas todas as terças e quintas-feiras das 15hs as 18hs. No primeiro dia da semana o grupo formado por um núcleo didático, composto sempre pelas mesmas pessoas. E nas quintas serão convidadas pessoas de diversas procedências para dançarem com os estes alunos. Estou sendo um tanto detalhista em relação a como o curso funciona, para que o leitor possa entender o universo prático no qual está entrando e, também, tenho que confessar, por uma certa dificuldade minha de iniciar minha impressão pessoal.

Dia 24/06/2008 - terça-feira


Antes de começar a primeira aula, não posso mentir, olhei para os alunos cadeirantes e pensei: “como assim, eles vão dançar?”. Eu sabia que estava sendo preconceituosa com absoluta certeza, mas não tinha como não questionar... Aquilo me causou angústia! Fui sempre educada pelo meus pais e pelos os meus amigos a não ter preconceito com nada e aquela sensação foi bem desagradável... Eu não sabia como lidar com aquilo, era uma mistura de aflição com pena, de dúvida com curiosidade, enfim de IGNORÂNCIA. Foi assim que me senti.

O primeiro exercício começa. E a Neca pergunta:
Quem tem irmãos vai para esquerda, quem não tem vai para direita.
Quem tem os dois pais vivos, vai para a direita e que não tem, vai para a esquerda.
Quem já foi ao dentista este ano vai para esquerda, quem não foi, vai para direita.
Quem tem filhos? – uma aluna pergunta.
Quem é comprometido? – outro questiona.
Quem está resfriado?
As perguntas fazem com que todos circulem pelo espaço e que sempre se separem em dois grupos.

Neca conclui: “Existem muitos jeitos de sermos classificados ou caracterizados na vida”.

Ufa! Isso me causou um alivio, ainda não sei bem porque.

Também foi bom ouvir dela após este exercício que eles estavam ali para aprender uma arte, que as aulas não eram terapia. Gostei mesmo. O jeito que a Neca conduz a aula e trata as pessoas é bom de observar. É como se ela deixasse claro para todos, e para ela também, que realmente não faz a menor diferença para dançar, e também para existir, como você se locomove no mundo.

Já no segundo exercício, mais direcionado para dança, me confrontei com o tamanho da minha ignorância!
Dançar sobre as rodas chega ser invejável. Utilizá-la para deslizar sobre o chão, ao ritmo da música, é incrível. Os movimentos feitos por alguém que, pensamos, não tem o corpo físico normal, são admiráveis.

Enquanto eles dançam observo o todo e, de fato, não faz a menor diferença se você é assim ou assado. A composição geral é riquíssima. Quer material melhor para a Arte?


26/06/08 – Quinta - segunda aula

Hoje chegou o primeiro grupo convidado. A roda dobrou de diâmetro. Duas crianças com paralisia cerebral vieram para participar.Os alunos do núcleo didático estão mais à vontade que os convidados. Ainda sinto um certo desconforto... nervoso! Mas já é melhor do que no primeiro dia.

Hoje percebo que venho aqui para dançar com as palavras. E, apesar de ter estudado jornalismo, sinto que sou bastante deficiente com a minha expressão escrita. É difícil articular o pensamento diante de algo que me toca profundamente na emoção, numa sensação inexplicável, que dá uma moleza no corpo e a boca cala. Sinto-me ineficiente.

Observar estas pessoas me fez chorar algumas vezes durante a aula. A emoção escorreu pelos olhos embalada pelos músicos Natalia Mallo e Ramiro Murillo que tocaram ao vivo para os bailarinos. Hoje está difícil colocar para fora tamanha humanidade alcançada pelos participantes. Os limites mentais e físicos podem ser um poço de criação para qualquer artista, se nos utilizarmos deles para voar.


Imagino que tenho que escrever algo muito profundo hoje e que não vou dar conta da encomenda. Sinto que as pontas dos meus dedos estão entupidas, criando um congestionamento de palavras que querem sair do meu corpo e não podem.

Na roda final da aula, Neca comenta: “às vezes a gente imagina que dançar é fazer piruetas e pular. E se você se impede de dançar porque você não ‘consegue’ fazer aquilo que imagina, você acaba perdendo um mundo de sensações novas”.

Mais um alivio!

imagens de terça-feira, Núcleo Didático

2 comentários:

Daniel GM disse...

nice......
myBlog

Edu O. disse...

e o que estou fazendo aqui em Salvador? eu deveria estar aí!!!!

sucesso para as meninas e todo grupo. Beijo especial em Neca e Estela!!!